
A decisão costuma se apoiar em três fontes: a autoavaliação do candidato no LinkedIn, um teste de nivelamento online de trinta a sessenta minutos, e a percepção do gestor direto.
Na maioria dos casos, isso basta. Na faixa que separa o B2 alto do C1, sobram dúvidas — e é nessa faixa que se decidem sucessões, transferências e cargos de gestão global.
O que vem a seguir não é fórmula nem crítica aos instrumentos. São observações de trinta anos avaliando profissionais sênior, e o que elas permitem ver numa única conversa.
O que cada fonte realmente mede
Antes de acrescentar qualquer coisa, vale saber o que você já tem em mãos.
A autoavaliação. Nossa nomenclatura informal é binária: ou a pessoa é "intermediária" ou é "fluente". Quem se assume intermediário sabe que trava — e essa autoavaliação costuma ser confiável. Quem se declara fluente muitas vezes não tem noção do que é estar em C1, porque ainda não esteve.
A autoavaliação do LinkedIn funciona melhor como hipótese inicial do que como dado de partida.
O teste de nivelamento. Mede bem gramática e vocabulário, e faz isso rápido e barato. Mede mal o que decide numa reunião: velocidade de reação e capacidade de operar fora do roteiro. Um profissional pode acertar questões de C1 e travar numa conversa de B2.
A percepção do gestor. "Ele fala bem" é uma informação real, mas mede confiança e desenvoltura, não proficiência. As duas coisas se correlacionam mal — há gente desenvolta em B2 e gente contida em C1.
Primeiro: as estruturas básicas estão sedimentadas?
Quando converso pela primeira vez com um profissional sênior, não procuro vocabulário rebuscado. Procuro algo bem mais básico.
Peço que ele fale sobre si, sobre o trabalho, sobre os assuntos que lhe são familiares. No presente, no passado e no futuro.
É deliberadamente fácil. Terreno conhecido, sem pressão, sem tema surpresa. E é exatamente por isso que funciona: se aparece tropeço nas três dimensões temporais dentro do terreno familiar, o profissional está mais próximo de B1 do que ele mesmo imagina.
Isso não desqualifica ninguém. Diz apenas que a base ainda pede consolidação antes de qualquer conversa sobre sofisticação — e que nenhum treinamento de "inglês para negócios" vai resolver, porque o problema está numa camada abaixo.
Segundo: a pessoa sai do concreto?
Confirmada a base, o próximo passo é verificar se o profissional opera em terreno abstrato. E aqui existe um instrumento bem específico.
As estruturas condicionais são a forma mais direta de testar isso, porque exigem que a pessoa fale de algo que não aconteceu:
- Hipótese real sobre o futuro — "if we launch in Q3, we'll capture the market share"
- Cenário hipotético no presente — "if I were the CFO, I'd restructure the team"
- Passado imaginário — "if we had anticipated the regulation, we wouldn't have faced that fine"
Não pergunte pela estrutura — pergunte pelo conteúdo. "O que você faria diferente naquele projeto?" força a terceira, e a resposta mostra sozinha se a estrutura está disponível.
Quem opera bem no concreto e trava no hipotético está em B2. E isso importa porque metade das conversas de negócio é hipotética: projeção, cenário, risco, contrafactual.
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Falar com o Paulo no WhatsApp →Terceiro: ela conduz ou acompanha?
Esta é a fronteira entre B2 e C1, e a mais difícil de ver — porque as duas coisas parecem iguais numa conversa cordial.
A diferença aparece quando você discorda.
Discorde de algo que o candidato disse. Não de forma agressiva — apresente uma leitura diferente e peça que ele sustente a dele. O que você observa não é se ele muda de opinião, e sim como ele responde:
- B2 repete o argumento com outras palavras, ou concorda para sair da situação. A estrutura para reformular não está disponível na velocidade da conversa.
- C1 reformula a sua posição antes de responder — "so if I understand correctly, you're saying that..." — e a partir daí constrói a discordância com precição.
Há um segundo sinal, mais sutil e impossível de disfarçar. Peça que ele explique um conceito complexo da área dele.
O B2 conta uma história primeiro e tenta chegar ao conceito a partir do exemplo. É o caminho longo, e funciona.
O C1 define o conceito com clareza e depois usa o caso como ilustração do que acabou de articular.
Um ilustra para explicar. O outro define e depois exemplifica.
Quatro perguntas para uma conversa de vinte minutos
Se você tem uma única conversa e precisa de leitura confiável, esta sequência cobre as três camadas:
- "Conte como foi o seu último projeto grande, do começo ao fim." Força passado, presente e futuro em terreno familiar. Testa a base.
- "O que você faria diferente se pudesse recomeçar?" Força o hipotético. Testa a saída do concreto.
- "Me explica [conceito técnico da área dele]." Mostra se ele define ou ilustra. Testa a fronteira B2/C1.
- "Eu leria isso de outro jeito — me parece que [leitura diferente]. Como você vê?" Força a discordância. Testa a condução.
Tudo em inglês, sem aviso prévio de que é avaliação. O objetivo não é pegar ninguém — é observar a língua funcionando fora do roteiro que a pessoa preparou.
Quando vale trazer avaliação externa
Na maioria das vagas, o que está acima resolve. Em três situações, não.
Quando quem avalia não é C1. É muito difícil identificar com precisão um nível acima do seu. Se o entrevistador está em B2, ele vai ler outro B2 como fluente.
Quando a decisão é cara. Sucessão, transferência internacional, cargo com report direto à matriz. O custo de errar é alto o suficiente para justificar meia hora de avaliação especializada.
Quando o candidato está na fronteira. B2 alto e C1 baixo são quase indistinguíveis numa conversa cordial — e a diferença entre eles decide se a pessoa conduz ou acompanha a reunião que vier.
Para os casos em que a conversa não basta e você precisa de registro estruturado, montei um diagnóstico de inglês para RH que devolve o resultado na escala CEFR — aplicável pelo gestor ou como autoavaliação.
E vale lembrar de uma coisa que muda a decisão: um candidato B2 alto não é necessariamente um não. A distância até C1 não é de conhecimento — é de velocidade de acesso ao que ele já sabe. Isso se constrói em semanas de uso concentrado, não em anos de curso. Escrevi sobre como decidir o requisito e o que fazer com quem está um degrau abaixo.
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