RH · Inglês estratégico

O que escutar quando alguém diz que fala inglês

Toda semana alguém de RH aprova ou barra um candidato para uma vaga que exige inglês avançado. Três coisas aparecem numa conversa de vinte minutos e mostram, com precisão, onde a pessoa realmente está.

Neste artigo
Duas pessoas em conversa profissional, uma delas ouvindo com atenção
O que decide não é o que a pessoa fala. É o que aparece quando a conversa sai do roteiro.

A decisão costuma se apoiar em três fontes: a autoavaliação do candidato no LinkedIn, um teste de nivelamento online de trinta a sessenta minutos, e a percepção do gestor direto.

Na maioria dos casos, isso basta. Na faixa que separa o B2 alto do C1, sobram dúvidas — e é nessa faixa que se decidem sucessões, transferências e cargos de gestão global.

O que vem a seguir não é fórmula nem crítica aos instrumentos. São observações de trinta anos avaliando profissionais sênior, e o que elas permitem ver numa única conversa.

O que cada fonte realmente mede

Antes de acrescentar qualquer coisa, vale saber o que você já tem em mãos.

A autoavaliação. Nossa nomenclatura informal é binária: ou a pessoa é "intermediária" ou é "fluente". Quem se assume intermediário sabe que trava — e essa autoavaliação costuma ser confiável. Quem se declara fluente muitas vezes não tem noção do que é estar em C1, porque ainda não esteve.

A autoavaliação do LinkedIn funciona melhor como hipótese inicial do que como dado de partida.

O teste de nivelamento. Mede bem gramática e vocabulário, e faz isso rápido e barato. Mede mal o que decide numa reunião: velocidade de reação e capacidade de operar fora do roteiro. Um profissional pode acertar questões de C1 e travar numa conversa de B2.

A percepção do gestor. "Ele fala bem" é uma informação real, mas mede confiança e desenvoltura, não proficiência. As duas coisas se correlacionam mal — há gente desenvolta em B2 e gente contida em C1.

Primeiro: as estruturas básicas estão sedimentadas?

Quando converso pela primeira vez com um profissional sênior, não procuro vocabulário rebuscado. Procuro algo bem mais básico.

Peço que ele fale sobre si, sobre o trabalho, sobre os assuntos que lhe são familiares. No presente, no passado e no futuro.

É deliberadamente fácil. Terreno conhecido, sem pressão, sem tema surpresa. E é exatamente por isso que funciona: se aparece tropeço nas três dimensões temporais dentro do terreno familiar, o profissional está mais próximo de B1 do que ele mesmo imagina.

Isso não desqualifica ninguém. Diz apenas que a base ainda pede consolidação antes de qualquer conversa sobre sofisticação — e que nenhum treinamento de "inglês para negócios" vai resolver, porque o problema está numa camada abaixo.

Segundo: a pessoa sai do concreto?

Confirmada a base, o próximo passo é verificar se o profissional opera em terreno abstrato. E aqui existe um instrumento bem específico.

As estruturas condicionais são a forma mais direta de testar isso, porque exigem que a pessoa fale de algo que não aconteceu:

  • Hipótese real sobre o futuro"if we launch in Q3, we'll capture the market share"
  • Cenário hipotético no presente"if I were the CFO, I'd restructure the team"
  • Passado imaginário"if we had anticipated the regulation, we wouldn't have faced that fine"

Não pergunte pela estrutura — pergunte pelo conteúdo. "O que você faria diferente naquele projeto?" força a terceira, e a resposta mostra sozinha se a estrutura está disponível.

Quem opera bem no concreto e trava no hipotético está em B2. E isso importa porque metade das conversas de negócio é hipotética: projeção, cenário, risco, contrafactual.

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Terceiro: ela conduz ou acompanha?

Esta é a fronteira entre B2 e C1, e a mais difícil de ver — porque as duas coisas parecem iguais numa conversa cordial.

A diferença aparece quando você discorda.

Discorde de algo que o candidato disse. Não de forma agressiva — apresente uma leitura diferente e peça que ele sustente a dele. O que você observa não é se ele muda de opinião, e sim como ele responde:

  • B2 repete o argumento com outras palavras, ou concorda para sair da situação. A estrutura para reformular não está disponível na velocidade da conversa.
  • C1 reformula a sua posição antes de responder — "so if I understand correctly, you're saying that..." — e a partir daí constrói a discordância com precição.

Há um segundo sinal, mais sutil e impossível de disfarçar. Peça que ele explique um conceito complexo da área dele.

O B2 conta uma história primeiro e tenta chegar ao conceito a partir do exemplo. É o caminho longo, e funciona.

O C1 define o conceito com clareza e depois usa o caso como ilustração do que acabou de articular.

Um ilustra para explicar. O outro define e depois exemplifica.

Quatro perguntas para uma conversa de vinte minutos

Se você tem uma única conversa e precisa de leitura confiável, esta sequência cobre as três camadas:

  1. "Conte como foi o seu último projeto grande, do começo ao fim." Força passado, presente e futuro em terreno familiar. Testa a base.
  2. "O que você faria diferente se pudesse recomeçar?" Força o hipotético. Testa a saída do concreto.
  3. "Me explica [conceito técnico da área dele]." Mostra se ele define ou ilustra. Testa a fronteira B2/C1.
  4. "Eu leria isso de outro jeito — me parece que [leitura diferente]. Como você vê?" Força a discordância. Testa a condução.

Tudo em inglês, sem aviso prévio de que é avaliação. O objetivo não é pegar ninguém — é observar a língua funcionando fora do roteiro que a pessoa preparou.

Quando vale trazer avaliação externa

Na maioria das vagas, o que está acima resolve. Em três situações, não.

Quando quem avalia não é C1. É muito difícil identificar com precisão um nível acima do seu. Se o entrevistador está em B2, ele vai ler outro B2 como fluente.

Quando a decisão é cara. Sucessão, transferência internacional, cargo com report direto à matriz. O custo de errar é alto o suficiente para justificar meia hora de avaliação especializada.

Quando o candidato está na fronteira. B2 alto e C1 baixo são quase indistinguíveis numa conversa cordial — e a diferença entre eles decide se a pessoa conduz ou acompanha a reunião que vier.

Para os casos em que a conversa não basta e você precisa de registro estruturado, montei um diagnóstico de inglês para RH que devolve o resultado na escala CEFR — aplicável pelo gestor ou como autoavaliação.

E vale lembrar de uma coisa que muda a decisão: um candidato B2 alto não é necessariamente um não. A distância até C1 não é de conhecimento — é de velocidade de acesso ao que ele já sabe. Isso se constrói em semanas de uso concentrado, não em anos de curso. Escrevi sobre como decidir o requisito e o que fazer com quem está um degrau abaixo.

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Paulo Cesar Vicente

Paulo Cesar Vicente

Há 30 anos preparo profissionais e executivos brasileiros para o inglês que trava na hora que importa. Profissionais de KPMG, Deloitte, EY, Google, AbbVie, Oracle e MSC Cruises já atravessaram essa mesma distância.

Certificate of Proficiency in English (CPE), University of Cambridge · Ciências Humanas, USP · Pós-graduação em Administração, Mackenzie · Formação docente, Eurocentre, Reino Unido.