RH · Inglês estratégico

B2 ou C1? Como o RH define o nível de inglês que a vaga exige

"Inglês avançado" na descrição da vaga não é requisito — é impressão. Um critério objetivo para definir o nível antes de abrir a posição, e o que fazer quando o candidato está um degrau abaixo.

Neste artigo
Quatro profissionais em reunião executiva ao redor de uma mesa
A decisão sobre o nível de inglês é tomada antes disso — e quase sempre sem critério.

Toda semana, alguém de RH numa multinacional brasileira toma uma decisão silenciosa: aprovar ou não um candidato para uma posição que exige inglês "avançado".

A decisão costuma se apoiar em três fontes: a autoavaliação do candidato, um teste de nivelamento online de trinta minutos, e a percepção do gestor direto.

Na maioria dos casos, isso basta. Na faixa que separa o B2 alto do C1, não. E é exatamente nessa faixa que se decidem sucessões, transferências internacionais e cargos de gestão global.

O que acontece quando não há critério

Três situações se repetem, e nenhuma delas envolve má-fé.

O currículo como autopercepção. O profissional não escreve básico porque soa mal. Não escreve fluente porque parece pretensão. Escreve avançado — porque participa de reuniões. Só que participar de reuniões é B2. Conduzir reuniões é C1. O currículo não distingue os dois.

A percepção do gestor. "Ele fala bem, deve ser C1." Na avaliação, o candidato é B2. Fala bem — mas não negocia, não discorda com precição, não propõe nova linha de ação em tempo real. Falar bem é impressão, não parâmetro.

O custo de descobrir depois. Profissionais contratados com base nessa leitura informal e barrados pela matriz meses depois, porque não tinham condições de exercer a função para a qual foram contratados. A empresa perdeu tempo e verba. O profissional perdeu mais.

O problema não é falta de rigor. É ausência de referência — e impressão tem custo.

A régua que resolve isso

O CEFR — Common European Framework of Reference for Languages — descreve proficiência em seis níveis pelo que o falante consegue fazer, não pelo que ele sabe. É a referência adotada por universidades, empresas e governos em mais de quarenta países.

A vantagem para o RH não é teórica. Ela troca uma discussão de adjetivos por uma verificação de comportamento observável: a pessoa sustenta uma discussão técnica quando ela sai do roteiro preparado?

Se você quiser entender a escala em detalhe antes de seguir, escrevi sobre o que muda entre B1, B2 e C1.

Por que B2 não faz o trabalho de C1

Esta é a parte que mais importa numa decisão de contratação, e ela não é questão de esforço.

O profissional em B1 lida com situações previsíveis. Responde perguntas diretas sobre o projeto, entende o essencial de uma reunião rotineira. Quando alguém questiona uma premissa ou muda o assunto sem aviso, faltam as estruturas para reagir em tempo real.

O profissional em B2 participa, responde e sustenta o ponto de vista dentro do escopo que conhece. Apresenta o status do projeto, responde perguntas técnicas da área. Mas não conduz, não negocia com precição e não discorda de forma estratégica.

O profissional em C1 dirige a reunião, reformula a posição do outro lado, propõe alternativa no meio da conversa e representa a empresa com a mesma autoridade que teria em português.

Não é que o B2 se esforce menos. É que a função do C1 exige estruturas que o B2 ainda não tem disponíveis na velocidade da conversa.

Que nível cada tipo de cargo exige

Não existe tabela universal — depende de quanto da função acontece em inglês e sob que pressão. Mas o padrão abaixo cobre a maioria dos casos que vejo.

NívelPerfil de cargoO que a função exige
B1Analista com contato pontualLer documentação, responder e-mail, acompanhar call sem participação ativa
B2Especialista, coordenador, analista sêniorApresentar status, responder pergunta técnica da própria área, sustentar posição em escopo conhecido
C1Gerente, diretor, sócio, qualquer cargo com report internacionalConduzir reunião, negociar prazo e orçamento, discordar com precição, representar a empresa

Uma regra prática que costuma funcionar: se o cargo prevê que a pessoa proponha, negocie ou discorde em inglês, o requisito é C1. Se prevê que ela informe e responda, B2 resolve.

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Como escrever o requisito na descrição da vaga

Trocar "inglês avançado" por "C1" é um avanço, mas ainda deixa espaço para interpretação. O que funciona melhor é descrever a função.

Em vez de:

  • "Inglês avançado indispensável"

Escreva:

  • "Inglês C1: conduzir reuniões com a matriz, negociar prazos e sustentar posição técnica em discussão não preparada."

Duas coisas mudam. O candidato se autoavalia melhor, porque a descrição é concreta. E você ganha o critério de avaliação pronto — basta verificar se ele faz aquilo.

Se você precisa mapear onde o time está antes de definir o requisito, montei um diagnóstico de inglês para RH que serve tanto para avaliação feita pelo gestor quanto para autoavaliação do colaborador.

O custo de errar para cima e para baixo

Os dois erros existem, e o segundo é menos discutido.

Exigir C1 onde B2 basta reduz o funil de candidatos, aumenta o tempo de contratação e encarece a posição sem ganho de função. Acontece com frequência em vagas técnicas onde o inglês serve para ler e responder.

Exigir B2 onde a função pede C1 custa mais caro, mas o custo aparece depois. A pessoa entra, entrega bem em português, e trava no momento em que precisa representar a área diante da matriz. A leitura interna vira "ele não tem perfil de liderança" — quando o problema era outro, e diagnosticável na entrevista.

O que fazer com quem está em B2 e a vaga pede C1

Essa é a situação mais comum, e ela não é necessariamente um não.

A distância entre B2 e C1 não é de conhecimento — é de velocidade de acesso ao que a pessoa já sabe. Quem está em B2 alto entende quase tudo e trava na hora de responder. O que falta não é mais conteúdo.

Por isso mais um curso raramente resolve: ele trabalha na construção do repertório, que já está feita. O que constrói velocidade é uso concentrado, num contexto onde não exista a opção de voltar ao português.

Na prática, isso significa que um candidato B2 alto pode ser aprovado com um plano de desenvolvimento de quatro a oito semanas — e chegar à função pronto. É uma decisão de RH, não de idioma.

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Paulo Cesar Vicente

Paulo Cesar Vicente

Há 30 anos preparo profissionais e executivos brasileiros para o inglês que trava na hora que importa. Profissionais de KPMG, Deloitte, EY, Google, AbbVie, Oracle e MSC Cruises já atravessaram essa mesma distância.

Certificate of Proficiency in English (CPE), University of Cambridge · Ciências Humanas, USP · Pós-graduação em Administração, Mackenzie · Formação docente, Eurocentre, Reino Unido.